domingo, julho 02, 2006


'[...] E não alegamos Autores para confirmação do que escrevemos; porque os desta arte nunca imprimiram [...]'

'Que cousa mais vil, e baixa, que uma formiga! Tão pequena, que não se enxerga, tão rasteira, que vive enterrada; tão pobre, que se sustenta de leves rapinos! Que coisa mais ulustre que o Sol, que a tudo dá lustre, tão grande, que é maior que a Terra; tão alto, que anda no quarto Céu; tão vivo, que tudo produz!' [Cap. IV: Como a arte de furtar é muito nobre, p.7]

'Assim são os ladrões: na Casa da Suplicação chamam-se infames, quando os sentenceiam, que é poucas vezes: mas nas ruas, por onde andam de contínuo em alcateis, têm nomes muito nobres' [p.8]

?E os sujeitos, e nestes, os que a professam, ainda mal que as mais das vezes são, os que prezam de mais nobres; para que não digamos que são Senhorias, e Altezas, e Majestades' [p.8]

'com o engenho e a arte de furtar anda hoje tão subtil, que transcende as águias, sem podermos dizer que é ciência nobre' [p.9]

'[...] para se livrarem de ladrões, que é a pior peste que os abrange, fizeram varas, a que chamam de Justiça, isto é, Meirinhos, Almotaceis, Alcaides, puseram guardas, rendeiros e jurados e fortaleceram a toidos com, provisões, privilégios e armas; mas eles, virando tudo do carnás para fora, tomam o rasto às avessas, e em vez de nos guardarem as fazendas, são os qye maior estrago nos fazem nelas; de sorte que não se distinguem dos ladrões, que lhes mandam vigiar' [Cap. IV: Como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões, p.16]

'Não falo de varas grandes, porque as residências as fazem andar direitas; nem das garnachas, que esperam maiores postos, e não querem perder o muito pelo pouco' [id., p.17].


Anónimo [atribuído ao Pe. António Vieira] [1652 [crê-se que de 1744] A Arte de Furtar, Amsterdam [crê-se que Lisboa]

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